Tenho águas marinhas dentro do
peito, e flutuam letrinhas divinas bailarinas. Dou um pulo, consigo agarrar uma
e coloco aqui. Como quem não disse nada, nunca dirá, talvez. Na incerteza das
levadas atiro pedras cada vez mais longe, cada vez mais perto, dou um tiro no
pé e outro pulo. Poupo o coração desenhado na bunda da menina, do menino azul. Deixo
de ler o passado, perco o interesse nas maquinas, nas ondas radioativas. Queria
conseguir entrar no barco, mas nasci para nadar nas correntezas adversas da
vida. Aceito o trabalho e me dedico, redobro a minha resistência ao plantar uma
roça de palmeiras, mandacarus, baobás, tomates, flores do campo. Êta labuta pra
dar alegria. Sinto-me mais viva.
Consertei os quadros tortos dos
casarios, desenhei na parede do quarto a minha sorte, confessei aos espelhos dos
bares os meus erros. Morri de amor nas estradas empoeiradas do sertão para que
a vida fosse altiva, alegre, forte. A trindade desfez os desenganos, vacilou a
boba dor da morte e se esvaiu. Os relógios apressados, atrasados, da natureza morta, como pasto
inflamado viraram cinzas. Pare este ponteiro, seu menino! Vamos saborear o
tempo dilatar nas veias mornas. O louco na sua pura realidade rouba uma
coxinha, senta num canto de parede seboso e se lambuza com alegria. Tento
decifrar o seu sorriso, não consigo, mas ao ver sinais da idade alguma coisa me
dói.
Enforquei os meus pés dentro de
botas, joguei-las longe e segui descalça sobre pequenas rochas.
Subi o Padre Cícero de joelhos, pedi a sua astúcia sobre os desmandos do faroeste.
Respeitei os doidinhos dos hospícios, cantei com eles o campo de batalha cheira
morte. E nos parques verdes do destino, me entreguei ao medo e fiz dele
coragem. Vomitei nos pés de César um pergaminho, dei um nó seguro na gravata de Holofernes. Ademais
as fábulas do povo tão etéreas, me divirto com as línguas maledicentes. O
plural antes do verbo dos caminhos, agrestinam o ar sagrado e seco das
andorinhas. Para não perder o trato e apaziguar as grosserias, me afasto do
nefasto cargo dos desatinados. Se é verdade que a solidão ensina, refino alfenins
de mel e cachimbos no alto da colina.
Registros de uma mente desdatada:
Hoje a minha amiga Daniela Galdindo está lançando o seu livro, Inúmera, na Casa
dos Artistas de Ilhéus. Toda energia positiva e felicidade daqui - esse livro vai voar, quero o meu. Hoje o
meu irmão, Matheus, está completando sete aninhos, queria muito abraçá-lo e
beijá-lo.
Sobre "Inúmera":
"(...) De baixo para cima o
livro Inúmera é um pertencimento de mundo, um recado que aposta todas as cartas
em uma saga: provocação. Uma experiência una e múltipla, ao mesmo tempo em que
o gesto solidário traz as margens para dentro das imagens (...)"
(Tânia Lima, Poeta e Professora
da UFRN - Natal - RN)
"(...) Erotismo vingando
séculos de passiva subserviência. Eis a vez do desejo: intenso, pulsante, para
despertar a vida, ingerir e digerir a vida, engendrar a vida. Necessária para
tirar o corpo da inércia, da inépcia, atirá-lo em mergulho abissal dentro e fora
de si, saltar precipícios, mover lancinante matéria, animá-lo com sentimento,
distante de qualquer sentimentalismo (...)"
(Daniel Fernandes, Músico - Rio
de Janeiro - RJ)
"(...) Inúmera tem a
vitalidade impressa na linguagem escrita que a vida da autora apresenta em seus
rasantes de cometa próximo à crosta terrestre. O cometa incendeia e – em si – é
água solidificada que flana no ar (...)"
(Carlos Barros, Cantor,
Compositor e Sociólogo - Salvador-BA)


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