12/01/2012

Fonte



Tenho águas marinhas dentro do peito, e flutuam letrinhas divinas bailarinas. Dou um pulo, consigo agarrar uma e coloco aqui. Como quem não disse nada, nunca dirá, talvez. Na incerteza das levadas atiro pedras cada vez mais longe, cada vez mais perto, dou um tiro no pé e outro pulo. Poupo o coração desenhado na bunda da menina, do menino azul. Deixo de ler o passado, perco o interesse nas maquinas, nas ondas radioativas. Queria conseguir entrar no barco, mas nasci para nadar nas correntezas adversas da vida. Aceito o trabalho e me dedico, redobro a minha resistência ao plantar uma roça de palmeiras, mandacarus, baobás, tomates, flores do campo. Êta labuta pra dar alegria. Sinto-me mais viva.

Consertei os quadros tortos dos casarios, desenhei na parede do quarto a minha sorte, confessei aos espelhos dos bares os meus erros. Morri de amor nas estradas empoeiradas do sertão para que a vida fosse altiva, alegre, forte. A trindade desfez os desenganos, vacilou a boba dor da morte e se esvaiu. Os relógios apressados, atrasados, da natureza morta, como pasto inflamado viraram cinzas. Pare este ponteiro, seu menino! Vamos saborear o tempo dilatar nas veias mornas. O louco na sua pura realidade rouba uma coxinha, senta num canto de parede seboso e se lambuza com alegria. Tento decifrar o seu sorriso, não consigo, mas ao ver sinais da idade alguma coisa me dói.

Enforquei os meus pés dentro de botas, joguei-las longe e segui descalça sobre pequenas rochas. Subi o Padre Cícero de joelhos, pedi a sua astúcia sobre os desmandos do faroeste. Respeitei os doidinhos dos hospícios, cantei com eles o campo de batalha cheira morte. E nos parques verdes do destino, me entreguei ao medo e fiz dele coragem. Vomitei nos pés de César um pergaminho, dei um nó seguro na gravata de Holofernes. Ademais as fábulas do povo tão etéreas, me divirto com as línguas maledicentes. O plural antes do verbo dos caminhos, agrestinam o ar sagrado e seco das andorinhas. Para não perder o trato e apaziguar as grosserias, me afasto do nefasto cargo dos desatinados. Se é verdade que a solidão ensina, refino alfenins de mel e cachimbos no alto da colina. 


Registros de uma mente desdatada: Hoje a minha amiga Daniela Galdindo está lançando o seu livro, Inúmera, na Casa dos Artistas de Ilhéus. Toda energia positiva e felicidade daqui - esse livro vai voar, quero o meu. Hoje o meu irmão, Matheus, está completando sete aninhos, queria muito abraçá-lo e beijá-lo. 

Sobre "Inúmera":

"(...) De baixo para cima o livro Inúmera é um pertencimento de mundo, um recado que aposta todas as cartas em uma saga: provocação. Uma experiência una e múltipla, ao mesmo tempo em que o gesto solidário traz as margens para dentro das imagens (...)"

(Tânia Lima, Poeta e Professora da UFRN - Natal - RN)

"(...) Erotismo vingando séculos de passiva subserviência. Eis a vez do desejo: intenso, pulsante, para despertar a vida, ingerir e digerir a vida, engendrar a vida. Necessária para tirar o corpo da inércia, da inépcia, atirá-lo em mergulho abissal dentro e fora de si, saltar precipícios, mover lancinante matéria, animá-lo com sentimento, distante de qualquer sentimentalismo (...)"

(Daniel Fernandes, Músico - Rio de Janeiro - RJ)

"(...) Inúmera tem a vitalidade impressa na linguagem escrita que a vida da autora apresenta em seus rasantes de cometa próximo à crosta terrestre. O cometa incendeia e – em si – é água solidificada que flana no ar (...)"

(Carlos Barros, Cantor, Compositor e Sociólogo - Salvador-BA)


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