Noites vazias





Cansei de me cansar. Não tenho vontade nem mesmo de falar, por isso tenho frequentado lugares barulhentos, estilo pubs londrinos abafados, antigos puteiros, que seja, eles agora me cansam também. Conversas em mesas de bar já não me atraem, estou sozinha, quero permanecer sozinha comigo mesma, vou dar um tempo, aposentar o salto. Minhas amigas estão em outra sintonia, já não me encontro, nem compartilho as mesmas vontades, elas são 8 ou 80, altíssima voltagem - eu sou meia luz. Minha única inspiração sou eu mesma, meus anjos e demônios, noites de insônia, corpo dolorido, meu suspiro, meu trago, meu sangue. Tentam me sabotar, não conseguem, entendeu!?, não conseguem! Nem tente, não perca seu tempo, não me deixo levar. Beijos displicentes, imemoráveis, não me vêm o cheiro, gosto, o gozo é instantâneo. Noites vazias, não mais. Me recolho, me nego, me castro. Tiro férias da boemia por tempo ilimitado. Me olham, sorriem, não falam, conversam, nem se chegam, sempre esperando uma resposta, um sinal. Coragem man, coragem! Atitude man, atitude. Não tem! Noites vazias me cansam, mas uma hora terá que bater, como um doce bom. Bater forte. Já não espero, me satisfaço comigo mesma, com meus discos, com meu show particular para mim mesma. Me visto para matar, passo sombra preta nos olhos, como antigamente, batom vermelho bordô, meia arrastão, salto alto roxo, lingerie super sexy, “glory box” é o som, e um espelho – me basta. Depois durmo feliz com a maquiagem borrada. Tenho encontrado observadores e usurpadores. Ou um ou outro, nenhum meio termo, um pouco de cada. Os observadores são os piores, me secam. Com os usurpadores pelo menos me divirto, usurpo também, homens e mulheres guardanapos. Sou verdade, mas falta tanta sinceridade no mundo.  Noites vazias, não mais, prefiro ficar com o meu espelho.

Hare Hare




Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare
Hare Rãma,  Hare Rãma,Rãma Rãma, Hare Hare 


 

Pobre Leninha

Pow Pow Pow Pow Pow

Leninha olhou rapidamente de um lado ao outro. Ela sabia que não eram fogos de artifício, nem crianças estourando bolas velhas catadas na frente de um prédio classe A- antes fosse.

: - Corre João, corre! Foram as últimas palavras de Leninha. A menina de 16 anos morreu imaginando bolas coloridas sendo pisoteadas por crianças. Nos cadernos de Leninha, jogados no chão, muitos corações vermelhos desenhados, e um lembrete em letras garrafais: “DIA 20, DENTISTA. DENTES ENTRAMELADOS NUNCA MAIS. EBAAA!” Toninho, seu irmão mais velho, havia dividido em 12 vezes com juros o aparelho que parecia mudar a vida da menina.

João não quer mais ir à escola. Não quer comer, sair para brincar na rua, nem aquele big sorvete o atrai. Dona Zuleide não tem dinheiro para pagar um tratamento psicológico para o pequeno, que viu a irmã caindo ensanguentada. João está em choque.

Além de Leninha, mais três homens foram mortos por “balas perdidas” da polícia, que fazia uma ação contra traficantes no morro dos Macacos. Três trabalhadores assassinados e considerados criminosos, sempre as mesmas desculpas. O filho de um deles, não cansa de chamar pelo pai. Sua avó lhe conta uma história bonita, diz que papai está no céu, com santos e anjos, em paz. Mais tarde ele irá descobrir quem matou o pai: o Estado, a polícia. Talvez se torne um traficante, daqueles que amam matar policiais, afinal, ele já não tem quem coloque o pão na mesa, já não tem bom estudo, nem perspectivas de um futuro promissor.

Leninha é enterrada; João ficou em casa deitado segurando uma flor arrancada da coroa. As amigas choram, a comunidade faz uma homenagem linda. E lá no meio, um cartaz de cartolina, com a frase: “Queremos vingança”.

Eu não sou perfeita




Eu não sou perfeita. Minhas sobrancelhas estão por fazer, deixo os cabelos da exilas nascer, crescer um pouquinho antes de decepá-los, assim como os das pernas. Acredito mesmo ter vivido na década de 60, no meio dos hippies do Woodstock – reencarnei rápido. Hoje, há uma enorme fobia de cabelos, sabiam? Quase não existem meninos de cabelão, tipo o Johnny Winter. Ah!, até tem um. Um galego dos cabelos na cintura, liso, lindo, e ainda motoqueiro. Só que ele nem sabe que eu existo. Nunca tive muito cabelo, sou índia, mas semanas atrás me vi numa clínica de depilação arrancando quase tudo. Minhas amigas fazem isso desde que os cabelos começaram a crescer. E tenho vários amigos que depilam o peito, e até as axilas, mesmo sendo hetero. Eles devem achar que aqui em baixo é a selva amazônica.
Eu não sou perfeita. Fumo e bebo demais, cuspo palavras tortas, ininteligíveis, e quando Dionísio me pega de jeito, primeiro um trago e depois o beijo. Agora vivo em 2009, e sou devagar com os homens, que já não sabem conquistar, seduzir, envolver com carinho e segurança. Meu relógio está desacelerado. Também não persisto em histórias de amor atrapalhadas, irracionais. Se você me der tchau, então, tchau. Para que insistir no que não dar certo?, penso, às vezes, errado. Quem saberá? E se o amor estiver justamente pedindo a luta, o instinto falando mais alto?! Massss, só sei as profecias que um cigano baiano me fez no Rio Vermelho. Deixo de ouvir o coração; digo não quando desejo o sim. A racionalidade me pega pelas mãos e carrega.
Eu não sou perfeita. Dou mais atenção aos amigos do que a qualquer pessoa. Choro mais quando meus cachorros morrem do que quando um ente familiar falece. Saio de casa sem pentear os cabelos, deixo esmalte vermelho descascado na unha, olho o passado trezentas mil vezes. Não faço praça, não faço sala para quem não me apetece. Sou séria demais. Trato todos em pé de igualdade e não aceito moralismos nem falsas amizades.
Eu não sou perfeita, não sou, e quero continuar assim.

Lançamento do livro "Soledad no Recife"







Li o primeiro capítulo do livro “Soledad no Recife”, do escritor pernambucano Urariano Mota, e fiquei com aquele gostinho de quero mais. Por isso, estarei na Livraria Cultura na próxima sexta (14/08), às 20h, para prestigiar um autor poético, de escrita fina, que sente “por todos os poros e sentidos”, segundo o próprio.

Urariano conta a história de Soledad Barret Viedma, uma jovem torturada, traída e morta – grávida de sete meses- no Recife de 1973. O livro foi publicado pela Editora Boitempo, e tem como pano de fundo o assassinato coletivo na chácara São Bento, que fica na Região Metropolitana do Recife. Lá, seis militantes foram mortos pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que havia designado o cabo Anselmo como informante infiltrado do regime militar. Cabo Anselmo era companheiro de Soledad e pai do filho que ela trazia no ventre – que traição! De acordo com o escritor, as informações publicadas pela mídia local, na época, vinham da agência de segurança nacional e são falsas. Ele afirma que, na verdade, houve uma execução fria de seis bravos militantes, incluindo a paraguaia Soledad, personagem principal do livro – é; os militantes eram sempre considerados subversivos e terroristas.
Fiquei realmente instigada... Urariano escreve sobre um caso triste de tortura e assassinato sem perder a doçura, a poética encantadora que me fez devorar o seu primeiro capítulo.

ANTES DE MIM






Se eu não existisse na sua vida
E a minha presença fosse desconhecida
O que serias?
Se os meus lábios jamais tivessem tocados os seus
E o teu suor se misturado ao meu
O que serias?
Se eu não inspirasse suas composições
E a minha luz nunca atravessasse a sua porta
O que serias?
Se eu não salvasse os seus domingos
E te chamasse de meu lindo
O que serias?
Relógio sem hora
Boteco fechado
Sinuca sem taco
Almoço sem sal.



*Foto de Leda Pinheiro, no Cassino do Crato-Ce. Sem efeitos especiais. uhuhuh Se garante.

Adolescente em crise!







Não podia deixar de postar o desenho de Livinha, minha prima amada, e suas amiguinhas. Impressionante como o tempo passa, passa, mas as fases continuam as mesmas. Foi assim comigo e minhas amigas, e agora acontece com ela, 10 anos mais jovem. O problema é que muitos, mesmo depois de várias primaveras, continuam no mesmo nível. Não conseguiram mudar de fase, ainda estão nos primeiros estágios de Mário. Vejo isso em homens de trinta e poucos anos, verdadeiros adolescentes em crise. Quanta falta de maturidade. Mas para uma coisa eles servem, servem sim, para duas, na verdade. Kkkkkkkkk