Raiva






Minha raiva não muda os fatos, atos, a decisão
Deuses furiosos são apenas bons motivos.
Minha raiva vira a página, é solução
Não se intriga nem quer tantas explicações.

Minha raiva é cobra criada
Pesadelo esquecido subitamente.
Minha raiva pula da rede
Acorda; limpa o chão.

Minha raiva ecoa no tempo
Acorda lúcidos, vendavais, violões.
Minha raiva esquece de si mesma
Só vê esperanças, vaga lumes, alecrins.

Minha raiva é bandeira hasteada
Luta santa e guerra boa no ar.
Minha raiva explode com a bruma
Fitas vermelhas pro espaço.

Minha raiva é um espelho
Caleidoscópio interior
Minha raiva é chuva que vem, e passa
Sol de queimar a vista, ilusão.

A minha raiva é pura indignação.







* Ilustração do querido Alexandre Dantas, nosso parceiro na Revista Zena. (www.revistazena.com.br).

Confiram: http://www.flickr.com/photos/tracotronxo

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Acabei de encontrar uma carta em papel de seda, com pontas puídas, endereçada a minha mãe, em 1973. Uma amiga lhe incita com um anúncio, e deseja que ela encontre um bom companheiro, com sensibilidade. Sei que a cobrança social contribuiu muito para o passo na frente de M., afinal, muitos acreditam que a realização de uma mulher, e sua felicidade, depende da figura do macho, procriador, chefe de família. Por mais que tenhamos consciência disso, e lutemos contra, a cultura é interiorizada e vira raiz de nós. Segundo ela, o fruto mais bonito do seu amor por um homem foram os filhos, que ainda ocupam o seu existir. O anúncio de Leda Rivas, hoje, é meu, assim como foi de minha mãe em tempos idos, e da sua amiga remetente, afinal, “nenhum homem é uma ilha”.
Existe uma concepção atual entre “jovens de vinte e poucos anos”, como uma mística que precisa ser seguida, que no dia dos namorados deve-se trocar presentes, jantar, e depois tudo acaba na cama. É claro que há prazer no sexo e ao degustar um bom prato - nem que seja momentâneo, ou em ser presenteada com algo especial. Mas é o amor, de forma verdadeira, que devemos celebrar. Os noticiários mostraram centros comerciais lotados, todos, mesmo que de última hora, comprando presentes para o amado, ou amada. Percebo que a maioria dos jovens estão presos a obrigatoriedade das rotinas, dos apelos comerciais, culturais, e midiáticos. Uma tarde romântica no parque já não satisfaz, um poema escrito para a pessoa amada está em desuso, tudo passou a ser uma obrigação, uma mecânica. É claro que existem exceções, já conheci algumas. Mas, hoje, esse anúncio de Leda Rivas é meu, porque é realmente um desafio encontrar “jovens de vinte e poucos anos” nos moldes escritos. Antigamente anunciava-se a procura de um amor, dava-se informações sobre a cor dos olhos e altura nos jornais – que para muitos servia como uma vitrine. Então, vamos anunciar, já que há muito tempo se diz que “a propaganda é a alma do negocio”. Como Clarisse, sonho em ter uma casa com jardim, cachorros, e filhos – o principal. E espero encontrar, como Leda desejou também, alguém com coração de irmão. Não tenho pressa, mas confesso que a vida sem um amor é um tanto sem graça.

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Procura-se alguém que não tenha compromisso com a vida e com ninguém
Que não faça parte de nenhuma corrente
Mas que possa sempre participar da tristeza da gente
Alguém que saiba ainda querer bem.
Procura-se alguém que não tenha partido
Que não queira impor a sua opinião
Alguém que saiba calar, que possa escutar
Alguém que já tenha sofrido e saiba também ser irmão.
Procura-se alguém com vinte e poucos anos
Que também seja só
Que saiba de enganos, desenganos
E tenha muito amor para dar.
Alguém que possa logo vir comigo pela vida a fora
E entenda se eu chorar.
Procura-se alguém com coração de irmão.

Obstinação

"Frequentemente o mundo exterior e minha vivência interna formam uma perfeita harmonia. São uma só coisa. A isto dou o nome de magia".


Hermann

Sombras do Passado


Talvez ele só volte

Daqui uns cinco anos

Cabeça grisalha

Sorriso vazio

Saudade no peito.

E se não voltar

Sua imagem ficará

Atrás da bilheteria

Como a sombra do passado

Que não passou.





Belisa Parente

About me









Sou o espelho dos meus olhos, das minhas mãos, do meu suingue, das palavras que saem da minha boca. Trago em mim uma energia que pode se materializar, assim como inebriar os de bom coração. Acredito na força do meu subconsciente e na natureza divina das coisas. Sou a raiz de mim mesma, do que fui, do que serei. Sou ficção científica, das melhores. Mas sou mundo real também, consciente do yin e yang, do humanismo que preciso desenvolver para equilibrar essas forças opostas. Sou do bem, por inteiro, e procuro praticá-lo em tudo que transpiro, produzo. O sonho do meu pai era ver-me casada com Jesus, mas consegui demovê-lo provando que o Nosso caso de amor é bem mais louvável. Descobri vivendo que só conseguimos amar e entender verdadeiramente o próximo quando nos colocamos em seu lugar. O passado sem respostas tenta sempre me assombrar. Às vezes entristece-me, outras me dá gás para seguir. Sou uma errante com sede de perceber, aprender, melhorar - tenho conseguido. Sou a mariposa que mesmo depois de muito cansada continua buscando luz. Sou onça também, e graças a Deus, meu jardim é repleto de amigas gatas, tigresas, leoas, panteras. Sou felina, mas só mostro as unhas quando é realmente necessário. Procuro me conhecer a todo instante, assim como penetrar na mente humana mais a fundo. Minha consciência é tão tagarela quanto o ponteiro dos segundos, mas um Samana me ensinou a desligar o relógio nas horas certas. Sou contemplativa, intuitiva, onírica, sou apoteose e simplicidade também. Razão e Loucura se equilibrando na balança. Nos meus 24 anos sou tudo, e nada.

O Flerte do Pássaro Liberto





Um pássaro verde de olhos libertos surgiu no meio da noite fitando os meus. Nunca tinha visto nada parecido, fiquei surpresa, imaginando qual seria o seu nome. Sempre gostei de pássaros, mas foi tudo muito rápido, e logo a conversa na mesa andou. Falávamos de como o homem precisa ser forte, e mais um monte de besteiras filosóficas vividas, sentidas, quando o Pássaro Liberto, eu havia inventado um nome pare ele já que desconhecia a sua espécie, surgiu novamente. Dessa vez, mais uma pessoa na mesa o viu. Lindo, o seu olhar parecia um imã, não se podia disfarçar, existia uma chama naquele olhar.
Dias depois, enquanto dava bom dia a Chico, que voava alegre entre uma rosa e outra e pousara lentamente no varal, lembrei do passarinho verde. Então, abri o livro O Canto dos Pássaros. Fui até a página 265 e nenhum parecido com ele. Em tempos idos os pássaros eram considerados mensageiros, eram vistos simbologicamente como anjos, estavam ligados a Deuses das mais diferentes culturas. Bom é vê-los voando para aonde desejam ir, soltos, compondo sinfonias colorida como as de Gismonti. Mas o Pássaro Liberto não cantou, e fiquei curiosa. Agora, imaginava como seria o seu canto, o seu tom.
Passaram-se algumas semanas para que ele aparecesse novamente. Mais uma vez senti o gosto do inesperado – o acaso me mata de felicidade. Havia muitas cores ao nosso redor, a cidade alegre cantava hinos e marchinhas, mas o seu olhar me capturou, silencioso e forte - e o resto foi sublimado. Procurei guardar tudo o que os meus olhos viam, consegui fotografar mentalmente o bendito passarinho, para depois procurar no livro. Sei que, no mínimo, ele deve estar em extinção, ou então é delírio, imaginação? Mais uma pessoa havia visto o pássaro, ele era real, de carne e osso. Pensei: - O Pássaro Liberto flerta comigo?
Não havia espanto, já convivi com vários pássaros, conheci um pouco de cada um deles, e busco conhecer mais. Chico, por exemplo, me aparece na janela do meu quarto, no quintal, na cozinha. Às vezes ele some, mas sempre volta. Como amigo mensageiro espia e depois cai no ar. Mas o passarinho verde me intrigava. O tempo passava e eu quase perdia a esperança em vê-lo novamente. Lembrava do seu olhar desprendido, despreocupado, mas sempre focado. Não sabia onde o encontrar, como o chamar, desvendar o mistério.
Acredito que as coisas estão onde realmente devem estar. Tudo tem a sua hora, seu momento de partida e chegada, para que como em um jogo de quebra cabeças as peças se encaixem em perfeito equilíbrio. Descobrimos a verdade das coisas só quando elas realmente nos devem ser mostradas, não devemos ter pressa em conhecer o que ainda não brotou. Abandonei o livro, resolvi não mais procurar o tal pássaro verde que decididamente flertava comigo.
Eis que numa manhã de sábado ele me aparece de subido. Alegre, carregava um brilho de purificação no olhar, como se tivesse acabado de atingir a primavera. O pássaro de olhos libertos fitou os meus e deu um longo voo, fez a volta no alto, lindo, leve, gracioso, e voltou direto aos meus ouvidos. :- Psiiiiiiiiiiiiiiii – cantou suavemente a voz alada e voou.


Belisa Parente

Meditação




















Não tem energia
Candeeiro não há
Não há uma porta
Uma casa
Nada que possa tocar.
Não tenho nem mesmo um cigarro,
Um gole de vinho para esquentar.
Não tenho medo
Nem Chico cantando para mim
Não posso ver as estrelas
A chuva não me atinge
Não tenho ninguém
Só o escuro, o escuro
Silencioso e brando.
Respiro profundo...
Tenho a mim mesma.



Belisa Parente